“Acho que meu filho tem TDAH, mas não tenho condições de pagar consulta particular.” Essa é uma das frases mais comuns nos grupos de mães — e a boa notícia é que o SUS atende, sim, crianças com suspeita de TDAH. A notícia menos boa é que o caminho tem etapas, fila, e exige paciência. Este texto explica como funciona, passo a passo, para que você saiba exatamente o que esperar.
Em uma frase: o SUS oferece avaliação, acompanhamento e, quando necessário, medicação para TDAH infantil. O caminho começa na UBS do bairro, passa pelo encaminhamento para especialista e pode incluir CAPS ou serviço de referência em saúde mental. O tempo de espera varia muito por cidade.
As informações desta página têm caráter educativo e não substituem a avaliação de um profissional habilitado. Cada criança tem um ritmo próprio, e sinais isolados não definem nada sozinhos. Se algo preocupa você, procure um psicopedagogo, psicólogo ou neuropediatra para uma avaliação individualizada.
Passo 1 — UBS: a porta de entrada
O primeiro lugar é a Unidade Básica de Saúde (UBS ou “postinho”) mais perto da sua casa. Você não precisa de encaminhamento para ir lá — é só marcar consulta com o pediatra ou médico da família.
Na consulta, explique o que você observa no comportamento do seu filho. Seja específica:
- Em que situações a dificuldade aparece (escola, casa, os dois).
- Desde quando você percebe.
- Se a escola já fez alguma observação ou relatório.
- Se existe alguém na família com diagnóstico de TDAH.
Leve qualquer documento que já tenha: relatório escolar, avaliação psicopedagógica, anotações da professora. Isso ajuda o médico a entender o quadro e agiliza o encaminhamento.
O que o médico da UBS pode fazer: avaliar a queixa inicial, descartar causas mais simples (problemas de visão, audição, sono, anemia) e encaminhar para o especialista quando julgar necessário.

Passo 2 — Encaminhamento para especialista
Se o médico da UBS entender que a queixa é consistente, ele faz o encaminhamento para um neuropediatra ou psiquiatra infantil da rede pública. Dependendo do município, o caminho pode ser:
- Ambulatório de especialidades — consulta direta com neuropediatra.
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) — quando existe CAPS infantojuvenil (CAPSi) na cidade, ele costuma ser a referência para TDAH.
- Centro de Referência em Saúde Mental — algumas cidades maiores têm serviços específicos para neurodesenvolvimento infantil.
O tempo de espera entre o encaminhamento e a consulta com o especialista é a parte mais frustrante do processo. Varia de semanas a meses, dependendo da cidade e da fila. Algumas estratégias para lidar com isso:
- Pergunte na UBS qual é o tempo médio de espera na sua cidade — ter uma expectativa realista ajuda.
- Peça que a UBS registre seu filho como “prioridade” se houver prejuízo escolar grave ou risco de reprovação.
- Enquanto espera, busque a avaliação psicopedagógica — ela mapeia o impacto na aprendizagem e pode ser feita em paralelo, sem depender do encaminhamento médico. O relatório que ela gera é útil tanto para o especialista quanto para a escola.
Passo 3 — A avaliação do especialista
O neuropediatra ou psiquiatra infantil vai fazer uma avaliação clínica — que inclui entrevista detalhada com os pais, revisão de relatórios escolares, aplicação de escalas padronizadas (como a SNAP-IV) e observação da criança.
Pontos importantes:
- Não existe exame de sangue ou de imagem que diagnostique TDAH. O diagnóstico é clínico — baseado em história, observação e critérios do DSM-5.
- O especialista pode pedir avaliação complementar: neuropsicológica, fonoaudiológica ou psicopedagógica, para entender melhor o quadro e descartar outras condições.
- Se o diagnóstico for confirmado, o médico define a conduta: acompanhamento, orientação à família e à escola, e, quando indicado, medicação.

E a medicação pelo SUS — tem?
Sim. O metilfenidato (Ritalina) faz parte do Componente Básico da Assistência Farmacêutica e está disponível em muitas UBS e farmácias do SUS — mas a disponibilidade varia por município. Outras medicações, como a lisdexanfetamina (Venvanse), são mais difíceis de conseguir pelo SUS e podem exigir processo administrativo ou judicial.
O que você precisa saber:
- Medicação para TDAH só é prescrita por médico, com receita controlada (tipo A3 ou B1).
- Nem toda criança com TDAH precisa de medicação. A decisão é do médico, junto com a família, baseada no grau de prejuízo e na resposta a outras intervenções.
- Se a medicação prescrita não estiver disponível na farmácia do SUS da sua cidade, pergunte na UBS sobre o processo para solicitação administrativa — cada prefeitura tem um fluxo.
O que a escola pode (e deve) fazer enquanto isso
Você não precisa esperar o diagnóstico fechado para pedir adaptações na escola. A Lei Brasileira de Inclusão garante atendimento educacional adequado a crianças com qualquer condição que impacte a aprendizagem. Na prática:
- Peça uma reunião com a coordenação e explique a suspeita.
- Solicite que a professora faça um relatório de observação — isso ajuda tanto o médico quanto o pedido de adaptação.
- Adaptações razoáveis (sentar na frente, instruções mais curtas, tempo extra em provas) podem ser implementadas antes do laudo.
Resumo do caminho
UBS (consulta com pediatra ou médico da família) → encaminhamento para neuropediatra, psiquiatra infantil ou CAPSi → avaliação clínica do especialista → conduta (acompanhamento, orientação, medicação se necessário).
Em paralelo: avaliação psicopedagógica + adaptações escolares. Nada disso depende de fila.
Para entender melhor o TDAH infantil — sinais por idade, critérios do DSM-5 e como diferenciar de agitação normal — leia o guia completo sobre TDAH infantil.

